Homem é condenado a 18 anos de prisão por assassinato de mulher trans em Cuiabá
Tribunal do Júri reconhece todas as qualificadoras e considera que crime foi motivado por discriminação; condenado cumprirá pena em regime fechado
Homem é condenado a 18 anos de prisão por assassinato de mulher trans em Cuiabá O Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá condenou, nesta terça-feira (5), Júnio Santos da Silva a 18 anos de reclusão em regime inicial fechado pelo assassinato da mulher trans Gisa, nome social de Gerardo Ribeiro Lima Junior, de 55 anos. O crime ocorreu em abril de 2024 e foi considerado pela Justiça como um homicídio qualificado praticado com extrema violência e motivado por discriminação.
O julgamento foi realizado no Fórum da Capital sob a presidência da juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá. A acusação foi conduzida pelo promotor de Justiça Vinícius Gahyva, representante do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).
Após a análise das provas apresentadas durante o processo, o Conselho de Sentença reconheceu a autoria do crime, rejeitou o pedido de absolvição apresentado pela defesa e acolheu todas as qualificadoras sustentadas pelo Ministério Público.
A decisão representa mais um importante capítulo no combate à violência de gênero e aos crimes motivados por preconceito em Mato Grosso.
Crime ocorreu em terreno baldio no bairro Consil
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o assassinato aconteceu na madrugada do dia 7 de abril de 2024, em um terreno baldio localizado na Rua Professora Tereza Lobo, no bairro Consil, em Cuiabá.
As investigações apontaram que Gisa foi brutalmente atacada e sofreu diversos golpes na região da cabeça.
Além das agressões, a vítima também foi submetida à asfixia, circunstância que contribuiu diretamente para sua morte.
A violência empregada no crime chamou a atenção das autoridades responsáveis pela investigação e fundamentou parte das qualificadoras reconhecidas posteriormente pelos jurados durante o julgamento.
Segundo o Ministério Público, os elementos reunidos ao longo da apuração demonstraram que a vítima não teve qualquer possibilidade de defesa diante da ação criminosa.
Jurados reconheceram todas as qualificadoras
Durante a sessão do Tribunal do Júri, os jurados analisaram as provas produzidas durante a investigação e responderam aos quesitos apresentados pela Justiça.
Ao final da votação, o Conselho de Sentença reconheceu que o homicídio foi cometido mediante diversas circunstâncias agravantes.
Os jurados entenderam que o crime ocorreu:
Por motivo torpe;
Mediante asfixia;
Com emprego de meio cruel;
Utilizando recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima;
Por razões relacionadas à condição do sexo feminino, em contexto de discriminação contra mulher trans.
O reconhecimento de todas as qualificadoras reforçou a gravidade do caso e influenciou diretamente na fixação da pena.
Na sentença, a juíza Mônica Perri destacou que a decisão do Conselho de Sentença confirmou integralmente a tese apresentada pelo Ministério Público.
Justiça destaca sofrimento causado à família
Ao definir a pena de 18 anos de prisão, a magistrada considerou não apenas as circunstâncias do crime, mas também os impactos causados aos familiares da vítima.
Segundo a sentença, a irmã e as sobrinhas de Gisa sofreram profundas consequências emocionais em razão da morte violenta.
A juíza ressaltou que os danos psicológicos decorrentes do assassinato continuam presentes e foram levados em consideração no momento da dosimetria da pena.
A decisão também observou a elevada reprovabilidade da conduta praticada pelo condenado e a intensidade da violência utilizada durante a execução do crime.
Prisão preventiva foi mantida
Júnio Santos da Silva estava preso preventivamente desde novembro de 2024.
Diante da condenação, a magistrada determinou a manutenção da prisão e autorizou a execução imediata da pena.
A Justiça também negou ao réu o direito de recorrer em liberdade, entendendo que permanecem presentes os requisitos legais que justificam sua custódia.
Com isso, o condenado continuará recolhido ao sistema prisional enquanto prosseguem os trâmites processuais cabíveis.
Caso integra exposição do Ministério Público
Durante os debates realizados no Tribunal do Júri, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva destacou que Gisa faz parte da exposição "Em Memória Delas", organizada pelo Observatório Caliandra, iniciativa desenvolvida pelo Ministério Público de Mato Grosso.
O projeto busca sensibilizar a sociedade sobre os impactos da violência de gênero e homenagear vítimas de feminicídio e crimes relacionados à discriminação.
Segundo o promotor, a inclusão de Gisa na mostra possui significado importante por reconhecer oficialmente sua identidade de gênero e evidenciar a necessidade de enfrentamento à violência praticada contra pessoas trans.
“Isso reforça a posição do Ministério Público em reconhecê-la como mulher”, afirmou durante o julgamento.
Combate à violência e à discriminação
Para o Ministério Público, a condenação representa um marco importante no enfrentamento da violência motivada por preconceito.
Durante sua manifestação em plenário, o promotor Vinícius Gahyva destacou que a atuação da instituição buscou demonstrar aos jurados todas as circunstâncias que envolveram a morte de Gisa.
Segundo ele, a condenação reafirma o compromisso da Justiça com a proteção da dignidade humana e o combate a crimes motivados por intolerância.
“Essa condenação reafirma que nenhuma forma de violência motivada por preconceito pode ser tolerada. O Ministério Público trabalhou para demonstrar aos jurados a dinâmica dos fatos, a autoria do crime e as circunstâncias que envolveram a morte de Gisa, garantindo a busca por justiça para a vítima e seus familiares”, declarou.
Violência contra pessoas trans segue sendo desafio
O caso também reacende o debate sobre a violência enfrentada pela população trans no Brasil.
Organizações de direitos humanos apontam que pessoas trans continuam entre os grupos mais vulneráveis à violência letal, muitas vezes sendo vítimas de crimes marcados por discriminação, exclusão social e preconceito.
Especialistas destacam a importância da responsabilização dos autores desses crimes como forma de fortalecer políticas públicas de proteção e ampliar a conscientização da sociedade.
A condenação de Júnio Santos da Silva encerra uma importante etapa judicial do caso, mas também reforça a necessidade de continuidade das ações de combate à violência de gênero e à intolerância.
Com a decisão do Tribunal do Júri, a família de Gisa recebe uma resposta da Justiça após mais de dois anos de espera pelo julgamento do responsável pelo crime que chocou Cuiabá e ganhou repercussão em Mato Grosso.




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