Seja bem-vindo
Várzea Grande,24/08/2026

  • A +
  • A -

Famílias no Poder: quando a política vira herança e o mandato se transforma em patrimônio eleitoral

De pais para filhos, de maridos para esposas, de irmãos para irmãos: a força dos sobrenomes continua moldando a política de Mato Grosso

Redação
Famílias no Poder: quando a política vira herança e o mandato se transforma em patrimônio eleitoral Famílias no Poder: quando a política vira herança e o mandato se transforma em patrimônio eleitoral

Embora a prática esteja presente em partidos de esquerda, centro e direita, especialistas apontam que a chamada "familiocracia" se consolidou como uma cultura política brasileira. Em Mato Grosso, as eleições de 2026 evidenciam a permanência desse modelo.

A política brasileira sempre conviveu com sobrenomes conhecidos. Em praticamente todos os estados, famílias inteiras ocupam espaços de poder por décadas, atravessando gerações e mantendo influência sobre prefeituras, câmaras municipais, assembleias legislativas, governos estaduais e até o Congresso Nacional.

Mato Grosso não foge à regra.

Nas eleições de 2026, o fenômeno voltou a ganhar força. Esposas, maridos, filhos, irmãos, sobrinhos e herdeiros políticos aparecem como candidatos em diversas regiões do Estado, especialmente em Cuiabá e Várzea Grande.

O fenômeno não pertence exclusivamente à direita nem à esquerda.

Está presente em praticamente todos os espectros ideológicos.

Mais do que uma estratégia partidária, tornou-se uma cultura política.

Uma cultura que divide opiniões.

Enquanto defensores afirmam que familiares apenas dão continuidade a projetos políticos bem-sucedidos, críticos argumentam que o processo dificulta a renovação da política e transforma cargos públicos em patrimônio familiar.

A política dos sobrenomes

No Brasil, os sobrenomes muitas vezes possuem mais força eleitoral do que os partidos.

Muitos eleitores votam em nomes já conhecidos, confiando no legado construído por familiares.

Esse capital político acumulado ao longo dos anos acaba funcionando como um ativo eleitoral extremamente valioso.

A lógica é simples:

Quando um político atinge o limite de mandatos ou decide disputar outro cargo, frequentemente surge um parente para ocupar seu espaço.

Em muitos casos, a estrutura de campanha, os apoiadores, os financiadores e a base eleitoral permanecem praticamente os mesmos.

Muda apenas o candidato.

O poder continua dentro da família.

Mato Grosso e seus clãs políticos

Levantamentos sobre a política mato-grossense identificam dezenas de famílias que exercem influência há décadas sobre o cenário estadual.

Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Família Campos

Talvez o clã político mais tradicional de Mato Grosso.

Os irmãos Jayme Campos e Júlio Campos construíram uma trajetória que atravessa décadas.

Governador, senador, deputado federal, prefeito e inúmeras outras funções públicas passaram pelas mãos da família, que mantém forte influência em Várzea Grande até hoje.

Júlio reage a 'desgaste' de Jayme e diz que se 'esconderia' para não votar  o retorno do SPVAT | Gazeta Digital

Família Mendes

O governador Mauro Mendes consolidou uma das maiores estruturas políticas do Estado.

Em 2026, a primeira-dama Virgínia Mendes passou a ser apontada como protagonista eleitoral, ampliando a presença do grupo familiar no cenário político estadual.

Nas redes sociais, Mendes comemora alta da esposa e diz que Virginia já  está em Cuiabá | O Bom da Notícia

Família Riva

Poucos sobrenomes carregam tanto peso na Assembleia Legislativa quanto o da família Riva.

A deputada Janaina Riva é filha do ex-presidente da ALMT José Riva, considerado um dos políticos mais influentes da história recente do Estado.


Família Pinheiro

A trajetória política dos Pinheiro atravessa gerações.

Emanuel Pinheiro seguiu uma tradição familiar iniciada por seu pai, que também exerceu mandatos importantes na política estadual.

Raio da política 'cai trê vezes' na família Pinheiro | Gazeta Digital

Família Baracat

Tradicional em Várzea Grande, a família Baracat possui décadas de participação na política municipal.

Em 2026, o ex-prefeito Kalil Baracat aparece como um dos nomes em disputa eleitoral, mantendo viva a influência política do sobrenome.

O caso Cuiabá: casal na política

A Capital também oferece exemplos emblemáticos.

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, tornou-se um dos principais líderes políticos da direita mato-grossense.

Sua esposa, Samantha Iris, conquistou mandato eletivo e passou a integrar o cenário político estadual, fortalecendo a presença familiar no poder.

Para apoiadores, trata-se de reconhecimento popular.

Para críticos, é mais um exemplo de concentração política em grupos familiares.

Esposa usa alcunha de “Samantha Iris - do Abílio” nas urnas para "puxar"  votos | Única News - Notícias e Fatos com Credibilidade

Várzea Grande: uma tradição histórica

Várzea Grande talvez seja o município onde a influência familiar esteja mais enraizada.

Campos, Baracat, Guimarães e diversos outros sobrenomes se alternaram ao longo dos anos nos principais cargos políticos.

O município construiu uma tradição em que famílias inteiras participam da vida pública durante décadas.

Isso cria um ambiente em que a disputa eleitoral muitas vezes acontece não entre projetos políticos distintos, mas entre diferentes grupos familiares.

Quando o parentesco vira debate jurídico

É importante distinguir duas situações frequentemente confundidas:

Herança política

Quando um familiar disputa eleição e conquista votos.

Isso é permitido pela legislação.

Cabe ao eleitor decidir se deseja ou não eleger aquele candidato.

Nepotismo

Quando parentes são nomeados para cargos públicos sem concurso, especialmente em posições de confiança.

Nesse caso, a prática pode violar a Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal, dependendo das circunstâncias e da existência de subordinação direta ou influência na nomeação.

Nos últimos anos, Várzea Grande acumulou diversos debates e ações envolvendo possíveis casos de nepotismo, investigações e questionamentos sobre nomeações de familiares na administração pública.

A nova geração dos herdeiros políticos

As eleições de 2026 mostram um fenômeno interessante.

Em vez de apenas filhos de políticos, cresce a presença de esposas, maridos e parentes próximos assumindo protagonismo eleitoral.

O movimento ocorre porque:

  • O sobrenome já é conhecido;
  • A estrutura política já existe;
  • Há menor custo para construir imagem pública;
  • O eleitor associa o familiar ao político original;
  • O grupo mantém influência mesmo quando uma liderança deixa o cargo.

Especialistas costumam chamar esse processo de transferência de capital político.

Em outras palavras, transfere-se a popularidade acumulada por um político para um familiar.

Democracia ou concentração de poder?

O debate divide cientistas políticos.

Há quem defenda que impedir familiares de disputar eleições seria antidemocrático.

Afinal, todos possuem o direito constitucional de se candidatar.

Por outro lado, estudiosos alertam que a repetição dos mesmos grupos familiares reduz a renovação dos quadros políticos.

Em muitos municípios brasileiros, novas lideranças enfrentam enorme dificuldade para competir contra famílias que acumulam décadas de influência, recursos, visibilidade e redes de apoio.

O resultado pode ser uma espécie de oligarquia moderna, onde o voto continua existindo, mas o poder circula entre poucos sobrenomes.

O eleitor está mudando?

Apesar da força das famílias tradicionais, o cenário político vem apresentando mudanças.

As redes sociais permitiram o surgimento de lideranças sem sobrenomes históricos.

Figuras como Abilio Brunini demonstraram que é possível construir capital político próprio por meio da internet e da comunicação direta com os eleitores.

Ainda assim, os sobrenomes tradicionais permanecem extremamente competitivos.

A eleição de 2026 em Mato Grosso mostra que a influência familiar continua sendo um dos principais ativos políticos do Estado.

Conclusão

A presença de familiares na política não é exclusividade de um partido, de uma ideologia ou de uma região específica.

Ela atravessa a direita, a esquerda e o centro.

Está presente em Brasília, nos estados e nos municípios.

Em Mato Grosso, a eleição de 2026 evidencia que a política continua fortemente influenciada por famílias tradicionais, que conseguem transferir prestígio, estrutura e capital eleitoral entre gerações.

A grande questão que permanece é: o eleitor vota no projeto apresentado ou no sobrenome que já conhece?

A resposta para essa pergunta talvez explique por que tantas famílias continuam ocupando os espaços de poder no Brasil.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.