Mais um soldado que tomba: morte de técnico de enfermagem escancara abandono e desvalorização da categoria em Mato Grosso

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Várzea Grande,09/06/2026

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Mais um soldado que tomba: morte de técnico de enfermagem escancara abandono e desvalorização da categoria em Mato Grosso

“Estamos em guerra e morrendo calados”, denuncia Josevan Santos, líder do movimento Soldados da Enfermagem, após tragédia no Hospital Metropolitano

Josevan Santos
Mais um soldado que tomba: morte de técnico de enfermagem escancara abandono e desvalorização da categoria em Mato Grosso Josevan Santos

Várzea Grande (MT) – A morte do técnico de enfermagem Hélcio José dos Santos, encontrado sem vida dentro de um banheiro de funcionários no Hospital Metropolitano de Várzea Grande, não é apenas uma tragédia individual. Para os que atuam na linha de frente do sistema de saúde, é mais um grito silencioso de uma categoria exausta, adoecida, invisibilizada e, acima de tudo, desvalorizada pelo próprio Estado.

Mais um soldado que tomba no campo de batalha”, lamentou Josevan Santos, fundador do movimento Soldados da Enfermagem, ao comentar o caso que chocou o estado nesta semana. “Hélcio não morreu por acaso. Ele morreu no exercício da função, dentro do hospital, depois de desaparecer por mais de 20 horas sem que ninguém notasse. Isso é simbólico do abandono que a enfermagem vive todos os dias”, completou.


💔 O silêncio institucional diante da dor

O corpo de Hélcio foi encontrado na manhã de segunda-feira (21), sentado, sem vida, em um banheiro interno da unidade. Ele havia sido visto pela última vez no domingo (20), às 19h30, pegando uma medicação na farmácia do hospital. Desde então, ninguém o procurou. Nenhum superior deu falta. Nenhum protocolo de controle foi seguido.

A negligência é gritante. Como pode um profissional sumir por quase um dia inteiro, dentro do próprio ambiente de trabalho, sem que a chefia, a empresa contratante ou colegas tomem providências?

“Se fosse um médico, o hospital teria parado em 30 minutos. Mas como era um técnico de enfermagem, deixaram o corpo ali apodrecer”, desabafa Josevan Santos, em tom de revolta.


📢 Sobrevivendo sob pressão: o retrato de uma categoria abandonada

A morte de Hélcio José não é um evento isolado. É o resultado de um ambiente tóxico e opressor que tem adoecido silenciosamente os profissionais da enfermagem em todo o país. Segundo Josevan Santos, além da baixa remuneração, os trabalhadores enfrentam assédio moral, sobrecarga de trabalho, turnos exaustivos, falta de apoio psicológico, e desrespeito sistemático de gestores e empresas terceirizadas.

“A enfermagem brasileira está à beira do colapso. Muitos colegas tomam medicação para ansiedade, depressão, insônia. Trabalhamos doentes, choramos no banheiro, e ainda temos que voltar sorrindo para os pacientes. O que aconteceu com Hélcio pode acontecer com qualquer um de nós”, denuncia o líder do movimento.

Mesmo após a conquista do piso salarial nacional da enfermagem, a categoria sofre com atrasos, judicializações e desmonte da lei, patrocinado inclusive por setores do próprio governo federal e validado por decisões do STF, que fatiaram a aplicação do piso em diversos estados.


📉 Quando o plantão vira trincheira

A estrutura hospitalar em Mato Grosso, especialmente nas unidades geridas por OSs e empresas terceirizadas, tem sido alvo de constantes denúncias de abuso, pressão psicológica e precarização das condições de trabalho.

No Hospital Metropolitano, onde ocorreu a morte, a ausência de protocolos eficazes de segurança interna e a falha no monitoramento de funcionários agravam o cenário de desumanização. O caso de Hélcio escancara esse problema: um trabalhador isolado, desaparecido por quase um dia, que morreu dentro do hospital e só foi descoberto por acaso.


🚨 A dor da filha e o silêncio das instituições

Danieli Santos, filha de Hélcio, foi quem denunciou o sumiço do pai ainda no domingo. Ela afirmou que procurou o hospital diversas vezes sem resposta e só foi informada da morte na manhã de segunda. “Trataram meu pai como se fosse descartável”, disse, em lágrimas.

Até o momento, nem a direção do hospital nem a empresa responsável pela contratação do técnico se manifestaram com explicações claras. A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) emitiu apenas uma nota de pesar, prometendo investigação — mas sem apresentar medidas concretas.


✊ Basta de romantizar sofrimento

Chega de chamar técnicos e enfermeiros de “anjos” enquanto os tratam como peças descartáveis em plantões que matam. Chega de exigir sorriso enquanto a alma sangra. Chega de discursos vazios sobre vocação e cuidado, enquanto o sistema esmaga emocionalmente quem cuida da vida dos outros.

O movimento Soldados da Enfermagem cobra respostas e mudanças reais:

  • Implementação de protocolos rígidos de segurança e controle de presença nos plantões.

  • Psicólogos e apoio emocional fixo nas unidades hospitalares.

  • Fiscalização mais severa sobre contratos terceirizados.

  • Fim do assédio institucionalizado.

  • Valorização imediata da enfermagem, com remuneração digna e respeito.


📌 A luta continua

A morte de Hélcio é uma ferida aberta na alma da enfermagem mato-grossense — e brasileira. E essa ferida só vai cicatrizar com justiça, reparação e mudança estrutural. Como disse Josevan Santos, “nenhum profissional deveria morrer dentro do hospital por abandono. Isso é inaceitável. Hélcio tombou em serviço, e seu nome não pode ser esquecido.”

Aos gestores públicos, a mensagem é clara: respeitem a enfermagem. Ou continuaremos enterrando nossos soldados.

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